quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Empatia Contraditória

A velocidade média do maior ponteiro do relógio começa a sussurrar.
Vejo o protótipo de um mostro soltar um berro estrondoso, e automaticamente,
O tempo marca mais um ponto no meu placar fracassado.
Crio um personagem, coloco uma máscara solto o cabelo e começo a marchar.
Me vejo dentro da precariedade distrital e vejo o tamanho da ignorância brasileira.
Minha cabeça começa a criar argumentos pros fatos
Vejo um reflexo de uma mão suada do espelho
Uma imagem de um olho sanguinário,
O mundo gira depressa, o coração descontrola,
O monstro já pronto começa a chorar,
A fome incomoda, a dor lateja cada vez mais forte, o suor começa a pingar,
Uma voz me tortura ...
O frio esquenta, sinto as costas queimar, uma mancha colorida.
Estou nua, nua e debruçada sobre mim.
A voz perde a força, os passos diminuem,
Os batimentos cessaram, o sofrimento acaba,
Um último fôlego e as marcas da mão no espelho.



(Letícia Ohane Rodrigues)

Suéter Verde-Musgo


Um passo de cada vez.
Eu sinto a sintonia dos meus passos explícitas na melodia das buzinas.
E agora nada mais me prende ao passado.
E tudo fica relativamente diferente.

A razão que hora explica tudo, não consegue ao menos identificar, muito menos exemplificar as modificações e motivos que eu encontrei pra agir assim.
A geografia não sabe a minha localização no espaço e a física não cita as esdrúxulas transformações químicas que excitam os meus pensamentos.

E quando eu olho para aquele céu cinza azulado, pensamentos positivistas invadem todos os meus sistemas.
E aquela garotinha que se sentia um grão de mostarda latino-americano,
Se transforma num gigante destemido.
E toda aquela certeza de ser um tanto bem maior, mostra outrora, toda realidade trancafiada.

Agora todos aqueles rostos são meus, todas as escritas, toda razão institucional.
Toda insônia derrotada, toda lágrima derramada, todos os versos desperdiçados se transformam em uma escadaria, e no topo, toda justiça e toda auto- exaltação de alguém que lutou pra chegar onde chegou.

Meu pulmão se enche de oxigênio putrefaço, a endofina agita o meu cérebro,
Arrumo minha boina, respiro meu ar de guerrilheira anti-fascista,
E sei que tudo posso. Tudo posso quando ando sob o reflexo dos prédios com meu suéter verde musgo.


(Letícia Ohane Rodrigues)